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Novas aventuras em mim (menor)

Aventuras em mim (menor)? Escrever é aventura, é incógnita. Viagem de dedos por sonhos, desejos, fantasias, pequenas e grandes coisas sobre mim e o mundo à minha volta. Desejo de partilha, também. De sentimentos, emoções, momentos, vivências, silêncios até. Quanto ao “menor”, é uma brincadeira, um pequeno trocadilho com a nota musical Mi menor. É, também, uma medida da minha humildade, da consciência brutal das minhas limitações como escriba.

24 junho 2015

No céu também há estrelas!



A menina tem de aprender que nem todas as estrelas nascem em Mullholand Drive ou arredores!!!  

O TRIUNFO DO "PUXA PELA CABEÇA"!

O inspector Maigret (1967-1990)


Adorava esta série! Os argumentos eram inteligentes e com suspense, prendiam o espectador. E o carisma do actor ajudava - e muito!

A propósito: lembro-me de ficar um bocado assustado com um episódio em que a Polícia encontrava uma perna ou um braço (já não me lembro bem...) num rio ou coisa parecida. Para um puto, era bastante desconfortável a ideia de pernas e braços andarem a aparecer por aí... 

26 junho 2008

E a vida sorri...

Logo da EDp


Hoje, recebi um e-mail desafiando-me a participar na discussão pública acerca da proposta apresentada pela ERSE (Entidade Reguladora do Sector Eléctrico) de nos pôr a pagar a conta da luz de uma cabana toda escaqueirada em Olival do Rio que Sobe (terra que, por acaso e em pleno delírio imaginativo, me saiu agora dos dedos; os Gatos Fedorentos que se ponham a pau... o pobre Trebbie já não tem pedalada para aquelas ladeiras). Rezava assim o dito cujo:

“Caros Concidadãos e amigos,

Esta malta pretende pôr os cidadãos comuns, bons e regulares pagadores, a pagar as dívidas acumuladas por caloteiros clientes da EDP, num total de 12 milhões de euros e, para o efeito, a entidade reguladora está a fazer uma consulta pública que encerra em meados de Julho. Em função dos resultados desta consulta será tomada uma decisão. Esta consulta não está a ser devidamente divulgada nem foi publicitada pela EDP, pelo menos que se saiba. A DECO tem protestado, mas o processo é irreversível e o resultado desta consulta irá definir se a dívida é ou não paga pelos clientes da EDP. A DECO teme que este procedimento pegue e se estenda a todos os domínios da actividade económica e a outras empresas de fornecimento de serviços (EPAL, supermercados, etc.). Há que agir rapidamente. Basta enviar um e-mail com a nossa opinião, o que também pode ser feito por fax ou carta. Peço que enviem o mail infra e divulguem o mais possível, para bem de todos nós cumpridores.

Exmos Senhores,

Pelo presente e na qualidade de cidadão e de cliente da EDP, num Estado que se pretende de Direito, venho manifestar e comunicar a Vossas Exas a minha discordância, oposição e mesmo indignação relativamente à “proposta” – que considero absolutamente ilegal e inconstitucional – de colocar os cidadãos cumpridores e regulares pagadores a terem que suportar também o valor das dívidas para com a EDP por parte dos incumpridores.

Com os melhores cumprimentos,

ATENÇÃO, O ENDEREÇO DO MAIL PARA ONDE DEVE ENVIAR O PROTESTO É O SEGUINTE: consultapublica@erse.pt

Como, ultimamente, me tem dado para a preguiça, decidi participar, até pelo puro divertimento de saber se ainda sei pensar o que sinto e escrever o que penso. O mail que mandei para a ERSE segue abaixo. Nada de especial, apenas umas linhas escritas em contra-relógio. Espero que, desta vez e porque é um tema polémico que a todos diz respeito, me encham o blogue de comentários...

“Lisboa, 26-06-2008

Exmos. Senhores:

Estando em consulta pública a proposta da ERSE de reflectir nas facturas da EDP as dívidas incobráveis (no valor de 12 milhões de euros), venho por este meio exprimir as seguintes opiniões:

1 – É lamentável a forma como o caso foi noticiado nos mais diversos orgãos de comunicação social, fazendo-se passar a ideia de que se trataria de uma lei já aprovada em sede própria (AR) e não uma proposta (em período de consulta pública) pela qual o regulador eléctrico se propõe resolver um problema que se arrasta há anos (e continuará a arrastar-se, se não for rapidamente encontrada uma solução definitiva e com futuro).

2 – Como bem frisou Nicolau Santos, na última edição do “Expresso”, é igualmente lamentável que, a troco de uns quantos votos, o Governo e a bancada socialista tenham vindo a terreiro criticar uma proposta em discussão pública e que, por artes mágicas da retórica parlamentar, se transmutou no inevitável sapo que todos teremos de engolir. Tal atitude revela desonestidade e falta de solidariedade institucional para com uma entidade que, em última análise, vela pelos direitos dos consumidores através da vigilância activa do mercado. Ah!, só para que conste: sou de esquerda e, quando voto, escolho a rosa.

3 – Semnpre houve e haverá caloteiros. O mesmo que dizer que, por mais voltas que se dêem às coisas, toda e qualquer empresa sempre se verá a braços com dívidas incobráveis. Actualmente, o montante mal-parado da EDP corresponde a 12 milhões de euros, 1 euro e 20 cêntimos por lusitano. O que, a dividir por 12 meses, daria a cada um de nós... ó pá, sei lá... façam vocês as contas! Nada por aí além. Nada por aí além, é como quem diz! Se esta medida agora proposta pela ERSE se revelar como excepcional e irrepetível, no sentido de sanear uma parte das contas da EDP e ajudar a atingir o equilíbrio financeiro que todos almejamos para termos uma eléctrica forte, que forneça serviços de qualidade a todos os portugueses e que seja menos vulnerável a acções hostis, acho-a razoável e, mais do que isso, honesta – pois diz expressamente ao que vem e o que espera de nós. Porque, a não ser assim, a EDP lá há-de arranjar formas menos transparentes de recuperar os famosos 12 milhões em falta nos seus cofres... (P.S: Claro que poupanças nos popós e nas reformas milionárias ao fim de meia dúzia de anos a aquecer as cadeiras, bom, isso também me parece uma boa medida de racionalidade económica... Mas bem podemos esperar sentados! Pelo menos, enquanto não nos livrarmos da mentalidade pedinchas do emprego sem trabalho e da congénita habilidade que alguns portugueses, por sorte da vida mais letrados que os seus semelhantes, revelam em se apropriar do que pertence ao Estado e não aos seus Césares avulsos...).

4 – Uma vez recuperados estes incobráveis, manda o bom senso que, a partir dos futuros lucros, se constitua um fundo de maneio exclusivamente destinado a fazer face a futuras dívidas. Na minha ingénua presunção de que os riscos devem ser partilhados por igual entre accionistas e clientes - mas eu não sou economista. Isto para que a EDP e a ERSE não voltem a fazer pagar os justos, que desembolsam a tempo e horas, pelos pecadores. E evitar que, quer o regulador eléctrico quer a EDP, voltem a fazer a triste figura de andarem a pedinchar (ou a assaltar, conforme a perspectiva) no refugo dos nossos bolsos.

5 – Tal como no livro de George Orwell (1), também nesta questão dos pecados há uns mais iguais do que outros. A bem da equidade e da justiça moral, deveria a EDP fazer um levantamento sócio-económico dos seus devedores. Porque não é indiferente, numa sociedade democrática, que o caloteiro o seja por simples “esquecimento”, laxismo ou indiferença perante as suas responsabilidades sociais ou se trate de uma família que se veja perante o dilema de “bem, deixa cá ver: ou pago a luz ou janto”. Eu, como ser solidário que me advém da minha condição humana, mando à caça dos gambozinos o caloteiro profissional mas de bom grado pago a dívida do meu vizinho que perdeu o emprego ou acudo à aflição daquela família que, mesmo mourejando de sol a sol, só vê migalhas à mesa!

6 – Obviamente, ideias luminosas como esta só têm graça uma vez. A partir daí, é só canções de escárnio e maldizer... Por isso, escudados no princípio constitucional da igualdade e do não favorecimento, não se lembrem os outros reguladores e as outras empresas de nos virem bater à porta com a factura do senhor que foi de férias por dois anos para as Seychelles e que, ora bolas!, não se está mesmo a ver que só por lapso se esqueceu de pagar as suas contas a tempo e horas? Sob pena de morrermos todos de riso e deixarmos pilhas de belas facturas a apodrecer a um canto da escrivaninha!

(1) - "O triunfo dos porcos/Animal farm", que tem lá uma pérola de sabedoria em que, nos ardores dos amanhãs que cantam numa quinta tomada de assalto pelos animais lá residentes, o cabecilha da revolução justifica privilégios do mando com o célebre: "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros"

Jorge Vargas (Biólogo)”

Não se acomodem, participem, enviem uma mensagem para a ERSE com as vossas opiniões. Afinal, não nos estamos sempre a queixar por não podermos fazer ouvir a nossa voz? Ora aqui está uma boa oportunidade para exercermos uma cidadania construtiva. Repito o endereço de correio electrónico da ERSE: consultapublica@erse.pt

Bons pagamentos! Fiquem bem. Vemo-nos por aí...

20 março 2008

Antes do blog (2)

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Como todas as histórias, também estas andanças blogosféricas têm o seu ponto de partida lá atrás, muito lá atrás, nas mal alinhavadas linhas pelo punho da criança que fui. Contudo, a culpa imediata e recente não a carrego eu mas sim a Luísa, que caiu e torceu um pé – ou coisa parecida. E, ao cair, fez-me tombar na memória daquela vez em que rachei a cabeça numa traquinice qualquer... Foi tão forte esse mergulho em mim, essa viagem a um eu que se desespera para ser descoberto e se dar aos outros, que senti um impulso, uma irreprimível ânsia de dar forma de letra a esse fragmento de memória. Resfatelei-me frente ao computador, dedilhei palavras a esmo e, quase sem dar por isso, vi-me com uma crónica nas mãos. Foi a primeira de uma série de sete que dei a ler via e-mail a quem já me tinha entrado vida adentro. Só depois, para rasgar mais largos horizontes, me atrevi ao voo de Ícaro e, antes que o Sol me comesse as asas, pus no mundo mais um blogue - um solo no coro de vozes anónimas, quiçá solitárias, que fizeram da Internet a sua trombeta.

A segunda dessas crónicas - tal como as outras, aliás - foi escrita há cinco anos (já?...), de rompante, em cima do joelho, à chegada ao Instituto e após uma noite mal dormida, cada martelar do teclado um eco das bombas que iam tombando do céu sobre a cidade dos califas. Como qualquer improviso, tem o seu quê de irreflectido e temerário. Escrito de boa-fé, todavia. Perante o que se sabia na altura, foi a crónica possível. Hoje, conhecemos as trapaças que levaram a guerra a instalar-se de novo no Médio Oriente, com toda a fúria de um cão raivoso. Vivemos ainda, na pele e na alma, a tragédia que lhe veio no rasto e que não tem ainda fim à vista. Em verdade vos confesso, porém: hoje, sabendo o que sabia na altura, voltaria a dá-la ao prelo.

Tinha pensado apresentá-la aqui, na sua cândida secura, sem fotos nem adereços (bem como às duas que se lhe seguiram, estas bem mais amargas e dolorosas...). Todavia, seria erro crasso não aproveitar as possibilidades multimédia que tenho hoje ao meu dispor. Por isso, cada uma das crónicas originais está agora ilustrada com algumas fotografias e, no fim deste post, encontra-se uma pequena galeria com algumas das melhores imagens que tenho no meu acervo pessoal. Resta-me referir que todas elas foram, na altura, publicadas nos sites da Associated Press, BBC e New York Times.

O atraso deste post em relação ao prometido resulta exclusivamente da indecisão de escolher umas dezenas entre as mais de 1000 fotos que estive a ver esta noite. Do facto, peço desculpa a todos os meus leitores.

Escolhas!

RTP1, 2h34m do dia 20 de Março de 2003 (hora de Lisboa). O dia está prestes a nascer sobre Bagdad, uma calma tensa domina a cidade, os seus habitantes preparam-se para a primeira oração do dia e, segundo o jornalista Carlos Fino, até se ouve o chilrear dos pássaros. A capital iraquiana, plena de luz, é a imagem de uma inocência desarmante.

RTP1, 2h35m do dia 20 de Março de 2003 (hora de Lisboa). Os pássaros talvez continuem a chilrear, mas já não se ouvem. Os seus elegantes trinados diluíram-se no ruído ensurdecedor das primeiras explosões e da resposta da defesa anti-aérea. George W. Bush cumpriu a ameaça: Bagdad está a ferro e fogo!

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Antes de exercermos nas ruas o nosso legítimo e inalienável direito à indignação, vamos a dois factos simples:

1 - George W. Bush chegou à Casa Branca após um processo eleitoral algo confuso e com os dólares dos barões do petróleo e do armamento. Mas, para o bem e para o mal, é o presidente eleito de um País democrático, pátria de Benjamin Franklin e dos direitos humanos. Saddam Hussein é o menino pobre das ruas de Bagdad que viu no partido Baas uma fuga à miséria e a esperança de uma vida melhor para o seu povo. Tentação fatal, porém. A ambição e o desejo de poder cegaram-no. Desde 1968 que é um ditador sanguinário, que não hesita em matar quem se lhe atravesse no caminho; que assassina diariamente o seu próprio povo; que dizimou centenas de aldeias curdas com armas químicas e biológicas; que, no espaço de pouco mais de uma década, desencadeou duas guerras contra os seus vizinhos (Irão e Kuwait); que paga 25.000 dólares às famílias de cada comando suicida que se lança contra autocarros israelitas cheios de crianças inocentes; que vive num desafio permanente à ONU e, logo, a todo e qualquer um de nós, cidadãos amantes da paz e da liberdade.

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2 - Há quem diga que esta é uma guerra civilizacional. Seja-me permitido discordar. Esta é uma guerra de interesses mesquinhos em torno do petróleo. E, por isso, é uma guerra de hipocrísias. As cabeças bem pensantes e politicamente correctas desta parte confortável do mundo acusam os Estados Unidos de violarem a Carta das Nações Unidas, de agirem à margem do Direito Internacional, de terem dado uma machadada no consenso e no diálogo entre os povos, de quererem ser os polícias do Mundo. Tudo isto é verdade e, à excepção da última cláusula, também se aplica ao Iraque. Pondo de parte que, numa sociedade civilizada, sempre é melhor haver alguns polícias que nenhum, quero aqui salientar um facto que anda algo esquecido: o país com mais interesses petrolíferos no Iraque é, imagine-se!, a França - as únicas companhias petrolíferas não nacionalizadas por Saddam Hussein são francesas. Percebem-se as cobardes reticências gaulesas: se a guerra fosse ganha por uma coligação liderada pelos Estados Unidos, lá se ia o ouro negro. Escudada numa aparência de legalidade, a França apenas procurou defender os seus mais imediatos interesses. E arrastou com ela meia Europa. Europa que, ao não se colocar em bloco ao lado dos Estados Unidos e mostrar a Saddam Hussein que não andamos aqui a brincar, ao não exercer uma pressão maciça sobre o regime iraquiano, deixou o carniceiro de Bagdad a rir-se à socapa e precipitou uma guerra que podia ter sido evitada pela via diplomática.

Neste momento já sinto dedos apontados à minha cabeça: olha, mais um idiota a favor da guerra. Quem me conhece, sabe que não é bem assim. Se tenho uma posição de princípio contra qualquer guerra? Tenho. Se estou de acordo com esta guerra absurda? Nem em sonhos ou pesadelos. Mas há um facto inegável: desde hoje e por tempo indeterminado, esta guerra faz parte das nossas vidas. Afecta consciências e sensibilidades, desafia os nossos ideais mais queridos, põe a já debilitada economia mundial quase de rastos, pesa sobre as nossas cabeças como uma espada de Dámocles. O tempo, portanto, não está para ambiguidades pseudointelectuais, para o discurso do "sim, mas…" tão do agrado de certas forças políticas. Há que definir, de uma vez por todas, de que lado estamos. Se estamos do lado da democracia e da liberdade, de um modelo de civilização pautado pela tolerância e pelo respeito do ser humano - ou se estamos do lado do regime sanguinário de Bagdad!

Eu, por mim, já escolhi: dêem-me uma arma e, como bom europeu que não esquece Omaha Beach, vou combater ao lado dos soldados americanos!

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Lisboa, 20 de Março de 2003


Danos colaterais… (1)

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”Danos colaterais”, “guerra cirúrgica e limpa”, “downsizing”, “reestruturação de empresas”... Digam-me lá se isto não vos faz lembrar um daqueles jogos vídeo de terceira ordem, com n vidas para fugir a sete pés do inexorável “Game over”?

Se não fosse trágico, daria para rir a bandeiras despregadas. Daria para rir a leveza, a leviandade com que se inventam expressões predadoras do real - conjuntos de vocábulos que se apoderam do vivido e o reduzem a uma dimensão única, a tal ponto que o real se torna... abstracto! Nascem, a maior parte, nas mentes narcísicas de alguns "opinion makers", saltam para as notícias e acabam como parte integrante do nosso vocabulário.

Um dos seus efeitos mais perversos é banalizar situações que, pela sua própria natureza, são excepcionais. Momentos prenhes de dor, angústia, medo, ansiedade, desespero, revolta são prensados numa ou duas palavras sonantes, devidamente embaladas para consumo público e repetidas até à exaustão nos meios de comunicação social. Insinuam-se na linguagem corrente – e nós, quais máquinas de repetição, debitamo-las alegremente nas conversas de café, seguros da nossa retórica, ensemismados na nossa capacidade de impressionar quem nos esteja a ouvir. Como se fosse a coisa mais normal do Mundo... Às tantas, são apenas sons que perderam o seu lastro de tragédia e se diluem num oceano de estatísticas. “A morte de um homem é uma tragédia, a morte de um milhão é uma estatística”, já dizia Estaline. E eis como se banaliza o horror.

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Agora que o Iraque é um país quase cadavérico, agora que a noiva do Médio Oriente jaz sob os escombros do seu enxoval, agora que os rios de lágrimas de ambos os lados do conflito ofuscam o Tigre e o Eufrates, peço-vos: não desviem o olhar! Do alto do vosso enfado, não caiam naquele vulgar “não posso mais, estou farto disto!”, escape para as nossas vidas continuarem a rolar descontraidamente, com um pé no futebol e outro na telenovela das nove e meia, e os olhos arregalados diante das animações 3D de tanques e helicópteros que se passeiam pelo estúdio do telejornal. Tenham a coragem de enfrentar o olhar suplicante ou o choro ensurdecedor destas duas crianças, marcadas na carne e na alma por uma guerra que não entendem, não pediram, nem tão pouco vão esquecer. Mergulhem a fundo nas fotografias, sintam o cheiro da carne queimada e do sangue seco, danos colaterais de um qualquer míssil tresmalhado! E, depois deste exercício, pode ser que comecemos a despertar para a realidade. Para o facto nu e cru de que uma “guerra cirúrgica e limpa” só pode ser a gargalhada de um Deus distraído e ausente. Porque uma guerra, qualquer guerra, não é um jogo de vídeo - é simplesmente o Inferno na Terra: há fogo, há dor, há gritos lancinantes, há lágrimas empapadas em sangue, há vidas únicas decepadas, há uma civilização que dá mais um passo em direcção ao abismo. Porque uma guerra, qualquer guerra, não é uma forja de heróis – é um gigantesco bestiário das poucas-vergonhas da Humanidade!

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P.S – À laia de pedagogia, queria partilhar convosco o título de alguns filmes que todos devíamos ver: A infância de Ivan, de Andrei Tarkovski; Vem e vê, de Elem Klimov; O caçador, de Michael Cimino; Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola; Platoon – Os bravos do pelotão, de Oliver Stone; Dr. Estranhoamor e Nascido para matar, de Stanley Kubrick; A lista de Schindler e O resgate do soldado Ryan, de Steven Spielberg; Corações de aço, de Brian de Palma; A barreira invisível, de Terence Mallick. Os dois primeiros, dos tempos da União Soviética, são particularmente importantes, pois testemunham ambos o olhar de um rapazinho sobre a guerra que lhe roubou os sonhos da infância.

Lisboa, 1 de Abril de 2003

Danos colaterais (2)

Aconteceu no Oeste, de Sergio Leone, é um monumental western, um épico que nos confronta com a face lunar da saga americana, uma argamassa indistinta de heróis e vilões moldada ao sabor das tórridas e desoladas paisagens do Arizona e do Utah. Homens “feios, porcos e maus”, de têmpera rude e não raro cruel, movidos pelo instinto de sobrevivência e pela ganância, de verbo solto e gatilho fácil.

A memória devolveu-me este filme ao olhar para um montículo de recortes de imprensa sobre a guerra no Iraque. Se calhar, esta associação de ideias peca por injusta, pode até não ser legítima, mas ao longo das últimas semanas têm ocorrido alguns incidentes que me andam a queimar neurónios.

As garrafas de água estavam intactas, a um canto. Uns centímetros ao lado, uma câmara de vídeo ardia, solitária e ainda enamorada das águas do Tigre. Bizarra cena, esta! E, todavia, de explicação simples: uns marines, no aconchego de um tanque Abrahms, tomaram-lhe o reflexo da lente como se de uma mira telescópica se tratasse e resolveram o assunto à bomba! Três jornalistas mortos e não me lembro quantos feridos… Resta perguntar se o Hotel Palestina, porto de abrigo da imprensa estrangeira em Bagdad, era um alvo militar estratégico.

O carro aproximava-se de um posto de controlo e o motorista recebeu ordem para parar. Por ra-zões que desconheço, não obedeceu e os soldados americanos, expeditos, emprestaram-lhe uns travões. Resultado: duas crianças mortas.

O cenário – e os meus olhos disso são testemunhas – era dantesco: numa extensão de várias dezenas de metros, o asfalto estava juncado de viaturas calcinadas, roupas ensanguentadas, pedaços de corpos, sobreviventes tomados pelo desespero da incompreensão perante os mistérios da vida. Porque tinham fugido de uma morte que tomavam como certa em Bagdad para o encontro fatal com os tanques Abrahms. Parece que não perceberam ou não ouviram a ordem de paragem.

O que ressalta destes três exemplos é a estonteante facilidade com que os soldados americanos dão uso ao gatilho, autênticos putos no pleno gozo de um brinquedo todo ele high-tech! E a questão é mesma essa: a maioria não passa de miúdos de vinte anos, longe de casa e numa terra estranha, assustados e temendo pela vida – ainda para mais com o risco acrescido de atentados suicidas. Mas, bolas!, se lá estão é de supor que receberam formação adequada ao desempenho da sua missão. Que treinaram o controlo dos nervos. Que aprenderam o valor da vida humana. Que interiorizaram o risco como parte integrante da sua profissão, pela qual são pagos (bem ou mal, isso é outra história). E de todas estas premissas resulta um corolário simples: o primeiro dever de um soldado é (devia ser) proteger esse bem inalienável que é a vida - a sua, a dos seus companheiros e, sobretudo, prevenir a morte inútil de inocentes.

Ora, se é certo que as situações descritas prefiguravam ataque eminente ou risco de atentado suicída, não é menos verdade que lhes estava associado um elevado grau de dúvida. Não eram situações de combate. Por isso, entre massacrar civis suspeitos (?) e correr o risco inerente à profissão, acho que a opção não é despejar o carregador. Afinal, quero acreditar que evoluímos um pouco desde os tempos do Colt 45! E se, numa crónica anterior, me ofereci para combater ao lado dos soldados da coligação, concerteza não era para participar nestas trágicas infantilidades.

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Estes incidentes revelam dois dos cancros que minam o vigor da jovem sociedade americana: o culto das armas e as várias obsolescências de um sistema educativo assente na lógica do lucro. Dois factores estreitamente interligados, aliás. Uma recente sondagem efectuada em Nova York dava conta de uma nítida divisão territorial na opinião pública a respeito da guerra em curso. O contra era maioritário em Manhattan e Staten Island; já em bairros como Queen's, Harlen e Bronx havia um claro apoio à guerra. Estes dados não surpreendem: nesses bairros vivem essencialmente famílias de fracos recursos, para quem a tropa acaba por ser a única hipótese de um curso superior gratuito para os filhos. Só que, entretanto, a sua formação humana ficou irremediavelmente comprometida, não só pela exposição a uma dose maciça de violência urbana e audiovisual como também pela pobreza intelectual de currículos que fazem do umbigo do tio Sam o centro do Mundo. E, assim, o egoísmo ofusca a compaixão; o orgulho impede a compreensão e abertura ao Outro; o fascínio das armas erige-se em desígnio nacional, estampado no articulado constitucional que garante a cada cidadão o direito de porte de arma, cavalo de batalha da National Riffle Association (NRA). Os americanos vivem em estado de permanente guerra civil, matam-se uns aos outros sem saberem muito bem porquê - e aquela imagem (Bowling for Columbine) de Charlton Heston triunfalmente de Winchester em riste, numa reunião da NRA, é uma das mais aterradoras que os meus olhos já viram!

Uma última palavra: honra! É um recado que deixo aos senhores George W. Bush e Saddam Hussein. A honra, indissociável da dignidade humana, não permite colocar armamento à porta de hospitais, no pátio das escolas, junto a edifícios residenciais ou encavalitado em monumentos. Tal como não permite, por muito “inteligentes” que sejam, despejar toneladas de bombas nas imediações desses involuntários alvos “estratégicos”. Já era meio caminho andado para evitar milhentos danos colaterais. Mas a verdadeira prova de coragem seria esses dois senhores queimarem alguns neurónios na reinvenção da Paz – em vez de os esbanjarem numa exaltação serôdia do Apocalipse!

P.S. – Se não se importarem, gostava de dedicar esta crónica à minha Mãe, que hoje faz 60 anos.

Lisboa, 22 de Abril de 2003


Cinco anos volvidos, não há grandes motivos para festejar, com a preciosa ajuda da Al-Qaeda, que fez do Iraque a sua Disneylândia pessoal: das famosas armas de destruição massiva nem rasto, 100.000 mortos civis, 4.000 soldados americanos regressados a casa num caixão, 600 mil milhões (600.000.000.000) de dólares atirados para a fogueira, um número enorme que nos foge à compreensão – e condena meio mundo à miséria. O Iraque, apesar das significativas melhorias já registadas e descontando o optimismo parolo de Bush, continua a não encontrar o seu norte. Um iraquiano, refugiado na Síria, ao ser questionado pela RTP sobre o futuro do seu país, respirou fundo e desalentou-se: “O futuro... No tempo de Saddam havia só um ditador. Agora, temos centenas!” Que a amargura do seu olhar não desça com ele à cova!

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Segue-se, como já referido, uma pequena galeria de fotos, espelho da tragédia e esperança do Iraque – e de todos nós... Pelo desculpa pelo improviso de algumas imagens, mas o tamanho de algumas fotografias e o aperto do tempo não me permitiram um mais capaz trabalho.

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Fiquem bem. Vemo-nos por aí...

11 setembro 2007

Isto não é uma homenagem!

Isto não é uma homenagem aos Estados Unidos – que, atavismos religiosos e fanatismos políticos à parte, não deixam de ser um grande País, pátria de bravos que trazem a democracia na massa do seu sangue, a terra de “Nós, o povo...” que promete liberdade e justiça para todos.

Isto não é uma homenagem ao povo americano – homens e mulheres que lutam e que trabalham, que amam e que sofrem, apesar de todas as suas incongruências e radicalismos vários.

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Isto não é uma homenagem a Nova York – cidade que muito amo; eu, que já a palmilhei rua a rua até quase ficar com os pés em chaga...

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Isto não é uma homenagem às Twin Towers - embora me brilhem ainda no coração as incríveis paisagens que os meus olhos guardam dessa passagem pelo céu.

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(Foto do autor)

Isto não é uma homenagem aos nova-iorquinos - que, mal-grado acossados pelos falcões da Wall Street ao virar de cada esquina, sempre me receberam de braços abertos e com um sorriso franco.

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Isto não é uma homenagem aos homens e mulheres que encontraram a morte sob os escombros das Twin Towers - embora me mereçam todo o respeito e consideração.

Isto não é uma homenagem aos heróis desse dia - os bombeiros e polícias que, com a sua abnegação e coragem, evitaram que a tragédia fosse ainda maior.

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Isto é, sim, uma homenagem sentida e chorada àquelas meninas e meninos que, hoje, interrogam Nova York em demanda do amor e carinho de um pai ou mãe que jamais irão regressar a casa.

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Por estas crianças, sejamos hoje comedidos e encontremos um lugar nos nossos corações para as aconchegar.

Este texto foi escrito em cima do joelho às três pancadas, eu sei... Mas uma coisa vos garanto: cada palavra aqui dita é sentida, é verdadeira até à medula!

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(Foto do autor)

Fiquem bem. Vemo-nos por aí...

23 julho 2007

Antes do blog (1)

Retornar a estas lides está a revelar-se bem mais custoso do que pensava. Esquecido do que a casa gasta, convenci-me de que bastava pousar os dedos no teclado e que um qualquer deus lhes puxaria os cordelinhos. Por vezes resulta! Só que convém não abusar da sorte e começar a transpirar um pouco. Muito, quero eu dizer. Soprar para longe as teias de aranha que me toldam o sentir, esse repuxo cristalino donde jorram as palavras. Porque o escriba é, acima de tudo, um espelho do mundo, um trovador das suas alegrias e misérias. Vencer o gargalhar do cursor é plasmar às meninges esses abismos da alma, mastigar cada angústia e inquietação, escutar o fragor da vida lá de fora e cravá-lo na massa da vida cá de dentro. Depois, é soltar esse touro na arena, torrencial e feérico, as palavras a acontecerem a cada resfolgar! Com querer e método, porém. Não desistir à primeira “branca”, arrancar cada frase a ferros suados até ao miolo. Labutar horas a fio, mesmo que isso implique desistir de outros prazeres. Escrever linhas inteiras e ousar lançá-las ao lixo, na certeza do próximo voo da Fénix! E, já que respiro Cinema por todos os poros, talvez não fosse má ideia habituar-me a fazer um guião de cada “post”, com ideias bem alinhavadas e um plano de obras bem delineado, em vez de fazer finca-pé na geração espontânea...

Acho que sempre andei de braço dado com a escrita e com esta vontade de me dar aos outros. De fábrica, portanto! Dizem-me que era cada papel sua sentença, deixados em cada canto e religiosamente engavetados pela minha mãe. Não sei. Talvez a memória das coisas mais longínquas só permaneça quando se refaz em chagas que nos molestam corpo e espírito. Ou talvez não! Seja como for, destas minhas danças com as palavras, a mais distante recordação a que consigo chegar é a de um raspanete por causa de uma redacção na terceira classe. Acho que sobre D. Afonso Henriques e a conquista de Lisboa.

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Lá fora, agoirentos, os pinheiros agitavam-se na espuma do Inverno. Perdido na carteira, entretinha-me a fazer rolar a borracha entre os dedos enquanto bichanava com o Zé Manel. O Quim Pedro, ao chamamento da professora, correu a ir buscar um “bom+”. Na ordem dos assentos escritos a letra miudinha, a seguir calhava-me a vez e já me punha em pé quando percebi que a coisa estava preta! O nome a seguir e o outro... e o outro. Do Jorge nem eco. Ainda me pus a balbuciar um “ó stora”, mas tudo o que consegui foi um ordeiro arquear de sobrancelhas a pregar-me à carteira até ao fim da aula. Que, quando chegou, não foi para todos. De pé, do lado de cá da enorme secretária, por companhia apenas as sombras dos pinheiros desenhadas no soalho, não sei quantas vezes a professora me perguntou donde é que tinha copiado a redacção. Provavelmente, as mesmas que arregalei os olhos de espanto, incrédulo perante a descrença do mestre no discípulo. E ali lhe jurei, a pés juntos e a cada descompasso do coração, que era tudo meu, muito meu, bebido nas lições que dela própria tinha ouvido e depois confirmado nalgum livro muito lá de casa!

Sai para o almoço com um “Muito bom” nos bolsos. Mais um cromo para a gaveta dos tesouros da minha mãe, que continuou a encher-se com o rolar dos anos. Uma aventura intelectual que se fez madura sob o olhar duro mas generoso do Dr. Pinto da Silva – e a ele um dia voltarei, fica prometido! Ele que, no momento de pespegar o máximo de pontos na terceira página da folha de teste, só lamentava que “pega sempre no tema dos argonautas”, como me recordo de ler a vermelho corrido por alturas do 8º ano, quando andava de nariz no ar à procura de OVNI’s e descarregava em letra nervosa a frustação desses encontros por cumprir... Seria interessante, hoje, reler essas ingénuas e descosidas estórias, a maior parte escritas ao sabor do tempo que faltava para tocar. Mas também eu tive a minha Dunquerque! Naquele Agosto de há vinte e um anos, entre destroços de uma vida inteira a que disse adeus enquanto me voltava para trás e via o portão verde desaparecer entre os contrafortes do Montejunto, não me despedi (para sempre...) apenas da casa e dos montes que me haviam visto medrar. Algures numa gaveta, esquecidas pelas pressas e pela dor, gotas do meu suor devem agora pedir meças ao bicho carpinteiro na voragem pelo pau-preto dessa arca de Noé que a minha mãe deixou por acabar.

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Apenas me resta esta redacção dada à estampa nos calores da Revolução. Fiquem como eu: estupefactos perante o reaccionarismo de um puto de onze anos, além da nula qualidade literária e pouco rigor factual da divagação! Segundo o Fininho, apenas me limitei a pensar pela própria cabeça e a emitir uma opinião. É uma maneira de ver as coisas. E, se calhar, justifica o “Bom”, quando a regra era o “Muito bom”. Mas toda a regra tem excepção! E o ter derrapado a meio também não deve ter ajudado à festa... E a liberdade, Jorge, a liberdade? Onde tinhas a cabeça, pá?

Aqui a deixo, tal e qual como está no papel:

“Redacção: O dia 25 de Abril e o primeiro de Maio

O golpe de Estado deu-se no dia histórico de 25 de Abril (na madrugada) com as tropas vindas das Caldas, de Santarem, etc.
Mas isto só provocou graves coisas: greves nas fábricas, manifestacões, etc.
E até há coisas impossíveis: os estudantes querem passar sem exames, outros querem aumento de ordenado etc. Se todos quizessem 100 contos por mês daqui a dois meses não havia dinheiro em Portugal
Portanto, eu acho que se devia agir da melhor maneira.
Não devia haver liberdade porque as pessoas abusam dela e é verdade
Ainda no Sábado eu fui jogar a bola para o Estádio Nacional estavam lá dois rapazes de bicicleta por cima da relva e um homenzinho disse-lhes esta frase extraordinária
- Não abusem da liberdade, meninos!
E tinha razão para dize-la
Algumas pessoas dizem: o bacalhau está caro o arroz tambem etc mas trabalhar para ganhar dinheiro não é com elas
Se todos pensassem assim: Vamos lá aqui produzir mais um bocado para ver se ganhamos mais já não havia tantos problemas
E ainda há outra coisa pior:
São os nossos territorios ultramarinos que podemos perde-los de um dia para o outro
E isto pode ser uma crise muito grande para Portugal porque é de lá que vem grande parte dos nossos produtos e muitos dos quais nós não temos cá: café, cana-de açucar, bananas, algodão, sizal, diamantes etc e ainda petroleo que é uma coisa importantissima porque se ninguem nos quiser f”

É impressão minha ou estas linhas são assustadoramente proféticas? Adiante...

Já agora, para quem ficou intrigado com o castelo do “post” anterior, aqui fica o génio de Fernando Pessoa, num português muito “assambado” (sob reserva, já que não consegui confirmar ser ele o autor deste poema):

Ser feliz

"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar
irritado algumas vezes, mas não esqueço
de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena
viver, apesar de todos os desafios,
incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos
problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser
capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

A Internet é, de facto, um grande espaço de liberdade e cidadania, toda a aventura humana ao alcance de um clique do rato. Quantos euros não teríamos de gastar para levar para casa 1040 poemas de Fernando Pessoa? É de borla em:

http://www.revista.agulha.nom.br/pessoa.html

Alguém falou em guião?!... Não tenho emenda, é o que é!

Fiquem bem. Vemo-nos por aí...

15 julho 2007

Reencontrar o caminho das palavras

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Quase um ano! Ausente. De mim, de vós, de ti... bazar da vida entregue à tua própria solidão. Um viver sem respirar, batidas de coração que clamam pela morte. Como deves sofrer, como deves odiar-me por este virar de costas que te foi empurrando, mais e mais, para um vazio de palavras! Eu sei, eu sei... tens fome e sede e o deserto não tem miragens nem óasis... Apenas esta areia escaldante que se faz duna, e montanha, e precipício - e se desfaz em lágrimas secas que gritam a tua revolta a cada solavanco dos ventos...

Olha, sabes?, de vez em quando perguntam-me por ti. Tu conhece-los: o Ricky, a Inês, a Zé, o Rafael, a Vera, o António... até mesmo o Joaquim, que te fazia seres um pãozinho quente pela manhã! E eu, que te dei ao mundo, enterro os ombros no meu desnorte e esboço o sorriso amarelo com que te prego ainda mais à tua cruz. Não merecias tal désdita. Tu foste sonho feliz nos meus olhos, aventura desfraldada na ponta dos meus dedos. Quisemos o horizonte e esporeámos a imaginação, medos e fantasmas enfiados debaixo do braço. Desculpa! Tu, assim é que está certo, ousaste tocar o Sol. Eu, eu acagacei-me e desterrei-me para parte incerta de glacial nenhures, agrilhoado a catacumbas bafientas e lúgubres que atamacam sentimentos, secam emoções, calam vivências que se querem partilhadas... Até o silêncio se faz morto por estas paragens!

Mas sempre o filho pródigo à casa torna. Filho que é também pai: o teu! Peço-te - e peço-me - que abras a porta e me deixes abrir-te o alforge onde me fui guardando para ti. Não tenho ouro nem cordeiros para fazermos a festa do regresso. Olho, remexo lá bem no fundo e trago na mão apenas esperança e desejo. De reencontrar o caminho das palavras, esses rebentos de Tágides minhas que de mim se apartaram, essas ilhas de amores desencontrados que me fervem o sangue e me empurram para ti. Sim! Para, juntos, testemunharmos o milagre da nossa ressureição. Afinal, já a brisa da tarde é beijo de Tágides minhas que a mim retornam, já o beijo é estalada forte a incitar ao caminho. E como este se faz caminhando, parta-se e caminhe-se, enfrentando cada curva, guardando cada pedra do castelo futuro que Pessoa prometeu construir em cada um de nós! Por agora, viajemos pela poesia de António Ramos Rosa, nesta ode às promessas que as palavras em si guardam...

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As palavras e o desejo

Por vezes perdem a sombre
e rodam pálidas sem a seiva do vento
Raramente vêm carregadas de frutos, de pedras e flores
ou apenas do seu silêncio de fogo.
Quando as línguas indolentes nos envolvem
na espuma das suas sílabas
é que os olhos do mundo nos olham através das imagens
e o enigma se aproxima silencioso e cúmplice
do nosso abandono deslumbrado
no volume côncavo do tempo.
Mas por vezes as palavras já não reflectem qualquer luz
e descem por escadas negras
até às primeiras águas e às redondas sombras
em que o silêncio é o puro silêncio sem imagens.

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E como nem só de versos nos alimentamos, eis um blogue que conheci através do “Expresso”:

http://expresso.clix.pt/COMUNIDADE/blogs/sinais_vitais/.

Um médico a meter os pés pelo Oriente e o resultado é um monumental fresco da condição humana, poderoso na captação dos mais ínfimos pormenores, poético no amor pelas vidas que à sua frente se mostram. Ou será ao contrário?

Fiquem bem. Vemo-nos por aí...

17 agosto 2006

Um gesto simples

“Bolas, ele já veio de férias para nos chagar o juízo com o idiota e inútil blog dele – e, como se não bastasse já o sacrifício, ainda nos arca com complexos de culpa aos ombros com petições sobre o ratinho da Índia que a prima de uma amiga da minha tia tem lá em casa!”. Aposto que é isto que deveis estar a pensar neste preciso momento... Tendes toda a razão! É verdade, voltei de umas curtas férias no Baleal e ainda ides ter que me aturar por mais duas semanas... A vida é cruel, eh!eh!eh!...

Tão cruel que existe um site na Net (The petition site: http://www.thepetitionsite.com/) onde qualquer um de nós pode lançar um líbelo contra o que lhe pareça uma injustiça da Humanidade para consigo própria ou para com o planeta que habita. Talvez seja uma moda, talvez seja uma fuga ao tédio em que estão a mergulhar as nossas sociedades ociosas e anafadas, talvez seja a visão cega de que progresso e vida digna são imcompatíveis, talvez seja apenas ódio de estimação por este ou aquele país ou indivíduo. Todavia, depois de aceder à página de abertura (www.thepetitionsite.com/takeaction) e contabilizar mais de 3000 petições activas (fora o “link” View all petitions, página tão pesada que nem sequer se dignou aparecer...), acho que algo vai muito mal neste reino do Homo sapiens e que, mais do que complexos de culpa (afinal, nós pouco ou nada decidimos sobre o andar desta carruagem planetária), o que realmente move tanta gente anónima é uma genuína, desinteressada e altruísta preocupação, um infinito amor por este nosso mundo e pela lição que querem(os) dar às crianças que serão os adultos de amanhã, herdeiros de quase 4000 milhões de anos de evolução. A cidadania activa, mais do defender este ou aquele direito, é um acto de resistência ao comodismo, aos interesses instalados, à nossa própria indiferença perante o que se passa à nossa volta. Basicamente, é uma defesa da vida, de toda a vida, contra quem não tem quaisquer pudores em espezinhá-la. Nesse sentido, acho eu, é também uma condição indispensável à sobrevivência da nossa espécie.

Claro que, se fosse pôr-me a esmiuçar os tais 3000 e tal gritos de dor, não faria outra coisa para o resto dos meus anos – e, verdade seja dita, aqui está um projecto de vida mais útil e interessante do que a existência patética que muitos de nós levamos, chutados de casa para o trabalho e recambiados ao fim do dia entre infindáveis buzinadelas e impropérios. Por isso, confesso: a petição de hoje chegou-me por “mail” – obrigado, Suzana! - e diz respeito à defesa de um fóssil vivo, lá pela terra dos cangurus... (http://www.thepetitionsite.com/takeaction/610807318?ltl=1155801311). Vamos lá fazer limpeza Tide às nossas consciências... E, já agora e para quem, como eu, for um apaixonado destas teias de Darwin, aqui fica um site excelente (http://www.rationalrevolution.net/articles/understanding_evolution.htm).

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